Bullying da natureza


Tem gente que adora ficar grávida. Abusa de camisetas justas (já que a barriguinha de chopp deixa de ser um problema), exibe o silicone natural, faz ensaio fotográfico usando tutu de balé, faz uma happy face de batom na barriga e bota Bach pro lindinho ouvir, ou seja, fica plena.

Admiro muito, mas comigo é bem diferente. Para mim, gravidez não é doença, é uma doença grave; daí o nome, gravi-dez. A gente tem que ir ao médico toda hora, tem mais sintomas do que quando pega rotavírus e vira imediatamente prioridade, junto com idosos e deficientes.

Veja bem, eu amo insuportavelmente meu filho, desde quando ele era um embrião. Mas na gravidez eu tive de tudo. Desafiei o livro “O que esperar quando se está esperando” sugerindo sintomas novos. O fato é que pega mal você não se sentir a deusa da fertilidade quando está barriguda. Já ouvi que o problema era eu não aceitar a gravidez. Ah é, então porque eu fiquei um ano fazendo teste de ovulação e plantando bananeira? Depois que a princesa Kate Middleton foi internada de tanto botar os bofes pra fora, eu relaxei. Devo ter sangue azul, pensei.

Uma vez meu marido soltou um muxoxo quando eu levantei pra ir deitar: “mas já? Fica aqui comigo um pouco mais, amor...”. E eu: “não estou me sentindo muito bem”. Ele: ”o que você está sentindo?”. Eu: ”ce ta com tempo?”.

Tinha dias que eu sentia uma dor de cabeça dilacerante, como se tivessem enrolado o cordão umbilical no meu cérebro. O Tylenol já não me aguentava mais. O nariz ficou meio entupido desde o começo da gravidez. Foi aí que descobri que existia a sinusite gravídica, que complementa a dor de cabeça se fundindo no topo da testa, lindo.

O melhor foi uma inflamação que eu tive na articulação sacro-ilíaca do lado esquerdo, coisa essa que eu nem sabia que existia, veja você. Aparentemente é consequência do alargamento do quadril, um dos bônus da gravidez. Achei que era dor na lombar, depois achava que era no cóccix, ô dor difícil de achar. O fato é que fiquei mancando por um bom tempo. Levantava da cadeira ou da cama com menos facilidade que minha bisavó. E a dor refletia, veja que iluminada! Ela começava assim como um beliscão no bumbum, uma bola de tênis na virilha, dava um choque no culote, pegava o quadril como um todo, vinha descendo calmamente pela perna, dava um oi pro joelho e arrebentava no tornozelo, apoteótica. Mas não ficava só por aí, não! A dor também subia, me desencaixando lentamente até a cabeça. A sensação que eu tinha era que o ombro esquerdo estava colado na orelha e eu não conseguia descolar. Na nuca tinha um chihuahua que me mordeu e não desgrudou mais. Dorflex? Miosan? Que nada, você tá grávida, minha filha. Vai fazer alon-ga-men-to e vai feliz.

As noites eram incríveis. Acordava tantas vezes para fazer xixi, que já não sabia se usava a fralda da criança ou passava a dormir sentada na privada, com o rolo do papel higiênico de travesseiro.

Refluxo, gases, arroto, viraram rotina e fizeram um bem danado para o meu casamento, como você pode imaginar. Cheguei a vomitar no pé do pai do bebê, que bonitinho. Aliás, sobre o enjoo, gostaria de escrever um livro especial. A gravidez é como estar num bote em alto mar. Mandam a gente buscar uma nutricionista e se alimentar bem para ajudar no desenvolvimento do bebê. Bom, durante um mês ele se esbaldou de comer Chicabon, única coisa que meu estômago aceitava. Depois pegamos horror do picolé. O mês seguinte incluía palmito, azeitona e limonada. Não durou muito. E fomos assim, com a alimentação equilibrista, nada equilibrada.

Tive que parar meus antidepressivos e ansiolíticos. Além de ficar com um humor esquisito, passei a colocar a homeopatia dentro do floral e regar com fitoterápico. As pessoas passavam a mão na barriga e diziam: “já te amo, meu filhinho”. E eu dizia: “nasce logo, moleque, senão vai direto pro colégio interno”. O bom é que dura “só” 9 meses. Fiquei mais íntima da drenagem linfática do que era do meu marido. Dividi a piscina aquecida do clube com senhorinhas de tôcas floridas. Fiz pilates só pra não ficar por fora. Meu umbigo virou um donnut. E o nariz de batata foi só um brinde da mãe natureza.

Com tudo isso, você me pergunta: você faria tudo de novo? Ter o meu filho foi a coisa mais espetacular que me aconteceu. Valeu cada chute na costela. Ele às vezes me enlouquece, mas é a minha pessoa favorita. Então respondendo, se eu faria tudo de novo? Claro que sim, mas desde que venha com a cegonha.

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