Supermercado



Ir ao supermercado não é mais ir ao supermercado. Além do checklist habitual, ganhamos mais um checklist: luva, máscara, álcool gel, coque, sobretudo, termômetro e um golão no álcool gel pra dar coragem. Entro no carro: será que dirijo de luva? Palpitação e falta de ar. Tiro a temperatura: 35,9, acho que estou morrendo. Entrada do estacionamento, pula um maldito ticket. Pego com o mindinho da mão esquerda e depois quase apago o código de barras com álcool gel. Paro o carro, visto a máscara, respiro fundo, pronta pra ir pra guerra. Besunto o carrinho e saio me esquivando dos demais aventureiros. No freezer da batata frita, um funcionário tosse. Prendo o ar. Já me imagino na UTI. Sei que vou sonhar com ele e vou acordar empapada de suor. Erro os corredores e dou muitas voltas pra achar a torrada integral. Ovo, pipoca e sabão de lava louça não tem, vou ter que voltar! Cruzo uma conhecida. Tremo. Tento sorrir com os olhos provocando câimbra na minha bochecha. Como faz de burca?! Melhor ir pro caixa. O rapaz que está atrás de mim não usa máscara, vou ter que prender a respiração de novo. À essa altura já estou craque em apnéia. Olho pras sacolinhas como olharia pro Darth Vader. Tento bater meu recorde pessoal de tirar as compras do carrinho, empacotar e pagar. Ela me pergunta se quero os selos da promoção. Volto a pegar o ar e quase mando ela enfiar os selinhos no *. Não olho o preço e penso que minha renda virá pela metade. Corro pro carro desviando de uma velhota (o que ela está fazendo aqui a essa hora?). Jogo a água sanitária em cima do mamão, tento tirar as luvas que cheiram a talco de bebê, entro no carro. Tiro a máscara e tenho uma mini crise de pânico. Atropelo a cancela porque borrei o código de barras e saio voando pra casa para esterilizar o abacaxi(!) com a certeza de que essa noite não faltará miojo.

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