Amigos

March 11, 2020

      Confesso que por algum tempo deixei de atender ligações e responder mensagens (principalmente de áudio) dos meus amigos. A depressão cobra vários preços e um dos mais caros é o isolamento social. Em mim isso dói especialmente, porque sempre fui muito sociável, festeira e contadora de histórias. Mas a verdade é que, eventualmente, um do meus amigos ou amigas furava o bloqueio. Aparecia lá em casa sem aceitar “não” como resposta: “levanta dessa cama que nós vamos sair”. Então abria as cortinas, me empurrava pro banho, enxugava minhas lágrimas, me escolhia uma roupa (coisa dificílima de se fazer deprimida) e me enfiava no carro. Me levava pra jantar no Pizza Hut (que vem com peperoni sabor serotonina) e ainda pagava. Me levava para assistir “Minha mãe é uma peça”, pra ver se eu esquecia dos meus problemas. Me dizia que eu tava linda, mesmo eu estando discretos 30kg acima do peso. Me chamava de querida e amada. Me abraçava, me beijava, me ouvia com atenção, chorava comigo, me afagava o rosto e me dizia - mesmo sem ter certeza - que tudo ficaria bem. Só parava o carro para rir quando eu falava algum palavrão bem ruim, para descrever como andava minha vida: “tá um caralho de asa verde” ou “tá uma caceta lôca do agreste”. Eu posso entrar em depressão, mas não perco o humor. Meus amigos me criticam com olhos de admiração, repreendem-me com olhos de pai e mãe. Abraçam-me com olhos de paixão. E ainda me agradecem por tudo. Por tudo o quê, meu Deus? Meus amigos não tem defeitos, tem características. Ouço por aí que tenho muitos amigos e que não podem ser todos de verdade. E que amigo nós temos dois ou três na vida e que dá pra contar nos dedos da mão. Eu não, eu conto nos dedos das mãos, dos pés e nas patas da minha cachorra. Porque sei que tenho muito pra dar pra eles. E recebo em dobro de volta. Porque meus amigos são como na música: metade amor e a outra também.

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