Casamento


Casamento é bom, mas é complicado. Não existe jeito mais fácil de se amar e odiar uma pessoa do que se casando com ela. Por exemplo, meu marido. Num dia a gente acorda e acho ele muito bonitinho, despenteado e com os olhinhos inchados. Aí ele vai ao banheiro e deixa a samba canção no chão e a luz acesa. Vai tomar café e fumar. Ódio profundo. Cato a cueca, apago a luz, escovo os dentes e deixo a torneira pingando, do jeito que minha força permite. Ele vem escovar os dentes e quer me matar: Por que razão você fecha essa torneira pela metade to-dos os dias? Pela mesma razão que você usa o desodorante e não devolve na cestinha! Confesso que tem coisas que eu faço só pra irritá-lo e, de quebra, me divertir: pintar a unha de verde fosforescente é uma delas; jantar de toalha na cabeça é outra; colocar 3 cobertores na cama no verão (me desculpe, eu sou friorenta!). E ele devolve: fica até de madrugada limpando as lentes de fotografia com lencinho umedecido e cotonete na cama; passa fio dental andando pela casa; dança quando estamos atrasados. Aliás, isso é coisa que acontece em todas as famílias: um fica pronto rápido, o outro demoooora. E quem espera, no caso eu, fica andando pra todos os lados de salto alto, derretendo o corretivo e gritando: Guilheeerme!

Casamento é muito simples. Pra quem não é casado. Quando eu comecei a namorar, sempre que íamos da casa dele - em Perdizes - para a minha - na Oscar Freire -, ele ficava o tempo todo me perguntando o caminho. Era a trigésima vez que ele fazia aquele trajeto. Eu tinha certeza que ele tava me zoando. Casei com ele e percebi que era sério. Um dia eu muito irritada por ele ter se perdido (se soltá-lo algumas quadras da nossa casa e der a volta no próprio eixo, ele nunca mais volta), soltei os cachorros. Foi então que ele me disse: sabe aquela sua mania de perder as coisas e nunca achar? (um pé de sapato, celular toda semana, o carro, o filho...). Então, esse é o seu chip queimado, o meu é o GPS. Naquele momento eu entendi e aceitei com compaixão as nossas dificuldades.

Também temos nossos bons momentos. Por exemplo, quando estamos numa reunião interminável da escola e uma mãe pergunta o porquê da filha chegar tão feliz em casa. (Como assim? Não é isso que a gente mais quer?) A mãe ainda completa: será que aqui na escola é só festa? Arregalamos os olhos e nem precisamos nos olhar. Estamos perplexos, mas rindo juntos por dentro. E quando nosso filho de 7 anos nos pergunta porque que as coisas existem, discretamente sorrimos orgulhosos e pensamos juntos: ferrou! Rimos das piadas bestas um do outro, choramos juntos de tristeza e felicidade. Quando eu to mal, ele sabe exatamente o que fazer. Um abraço, silêncio e a mão pra eu me levantar. E quando ele tá mal, eu também sei o que fazer: ovos mexidos (a única coisa que eu sei fazer bem além de arroz, dos tempos que eu morava sozinha), além do abraço e a mão pra ele se levantar.

Não casei com ele porque ele ficava um gato com aquela camiseta do Poderoso Chefão. Nem porque ele tocava piano e cantava me fazendo disfarçar o choro. Muito menos porque ele era gentil e me dava sempre o maior pedaço da pizza. Não. Me casei porque eu era - e ainda sou - capaz de ouvi-lo falar, super interessada, sobre qualquer assunto pela madrugada. Porque poderia falar com ele sobre qualquer coisa, mesmo que fosse TPM, que ele teria o que dizer. A camiseta do Poderoso Chefão furou. As novas canções nem sempre são pra mim. E eu nem como mais pizza! Mas conversar com ele noite adentro segue ainda mais interessante do que no começo. Isso quando não acaba em discussão. É complicado.

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