Premonição amorosa



Vocês vão achar que é mentira, mas eu escolhi meu marido por premonição. Antes de falar sobre esse momento mediúnico, deixa eu contar como cheguei até aí. Eu e minha irmã estávamos voltando da praia de Ipanema quando passamos pela igreja Nossa Senhora da Paz e nos demos conta de que estava prestes a começar a benção de Santo Antônio. Corremos pra entrar, ajoelhamos lado a lado em frente ao santo e pedimos ajuda pra resolver nossa situação. Nós já estávamos esbarrando nos 30 e havíamos terminado namoros que eram supostos acabar em casamento. Juntas, naquele momento, do fundo dos nossos corações solitários, pedimos que Santo Antônio nos desencalhasse.

Pouco tempo depois, minha irmã foi morar em Londres. Por lá reencontrou um ficante de dez anos atrás. Pá pum começaram a namorar e foram morar juntos. Eu, aqui no Brasil, saía de uma depressão costumeira e fui visitá-la na Inglaterra. No segundo dia, tomando café da manhã na cozinha, perguntei ao meu novo cunhado: cara, você tem um irmão? Ele: sim, por que? Eu: porque eu vou casar com ele. Ele riu e disse que eu não o conhecia e que ele não era exatamente fácil (bem que ele me avisou). Eu ainda completei, toda trabalhada na mãe Dinah: ainda vou trabalhar com vocês (2 anos depois montamos uma produtora de som). Passei o resto da viagem perguntando que tipo de sucrilhos meu futuro marido gostava, o que ele fazia no tempo livre, essas coisas. E anotava no meu caderninho, fazendo a repórter louca. Sentia tanto que o conhecia, que cheguei a fazer um desenho dele, livremente adaptado de uma foto do celular do meu cunhado. Estilo nunca te vi, sempre amei. Num tal dia, o conheci pelo Skype. Haviam me contado que a ex dele se chamava Beatriz, como eu. E por acaso meu ex se chamava Guilherme, como ele (aliás sempre amei esse nome e dizia que se não fosse do meu marido, seria do meu filho). Achei que era um sinal. Quando o conheci no Skype, ele tinha um cabelo leonino, os óculos do Harry Potter e ainda carregava um cachimbinho de durepox. Me apaixonei. Enquanto eu jogava um xaveco, minha irmã e meu cunhado acenavam por de trás do computador: nãooooooo... Eu devia estar falando muita besteira. Passaram-se os dias e ouvi meu cunhado pedindo à minha irmã, que logo voltaria ao Brasil, que levasse pro irmão dele um oboé armênio chamado Duduk (uma flautinha de madeira). Eu pulei na frente e disse: eu levo! Voltei pro Brasil e marquei do Guilherme ir buscar a flautinha lá em casa numa sexta à noite (não sou boba nem nada).

Na época, eu morava com uma amiga e sexta era dia da galera aparecer sem avisar. Ele me perguntou se haveria muita gente, porque ele era um pouco tímido. Eu disse: nãummm, magina! Na noite combinada ele tocou a campainha segurando uma garrafa de vinho e o tal sorrisinho tímido. No meu apê tinha mais ou menos 20 pessoas, tocava flash dance e minha roommate usava polaina. E o que ele só soube no final da noite era que eu tinha esquecido a flautinha na casa da minha mãe! Ele entrou, conheceu o pessoal e começou a trocar ideia. Só que o cara era muito bom de papo e fazia amizade fácil. Além de tudo, ele era muito inteligente e falava de assuntos difíceis. Após umas taças de vinho eu já não conseguia acompanhar. Eu tentava fazer um comentário esperto e as pessoas diziam: ãham e voltavam pro Gui. Eu tava deslocada na minha própria casa! Então resolvi tomar uma atitude e fui botar meu batom vermelho, avisei a todos que estava indo dançar e vazei. Então o crush me ligou e me perguntou porque eu o tinha deixado sozinho na minha casa! Eu fiz um trato com ele: eu daria a volta no quarteirão no táxi (pré-uber) e só pararia se ele estivesse na frente do meu prédio na hora que eu passasse e me desse um beijo. Ah, de batom vermelho. Ok, agora você tem certeza que eu sou louca. A verdade é que deu certo. A partir dali, não nos largamos mais. 7 meses depois, num dia dos namorados, ele me pediu em casamento com aliança, fondue e tudo mais. Óbvio que eu já tinha avisado a ele, educadamente, que casaríamos em breve, mas ele fez a gentileza de fazer esse gesto romântico. Coincidentemente minha irmã também foi “pedida” em casamento pelo irmão dele no mesmo dia, sem que eles tivessem combinado. Depois de um ano juntos, casamos na casa dos pais dele, ao pôr do sol. Fomos pra Inhotim na lua de mel. Começamos a trabalhar juntos. Tivemos um filho que se chama Antônio, minha homenagem ao santo.

Depois de 10 anos, ainda sou louca pela conversa difícil dele. Mas no primeiro ano de casamento, quase nos enforcamos. Depois de tanta preparação e expectativa, foi desanimador chegarmos em casa cansados, sem os hormônios do início do namoro e termos que requentar o jantar ouvindo o Jornal da Band. Foi irritante descobrir que ele nunca apagava a luz do banheiro e ele, que eu dormia com Bepantol nas olheiras. Isso não tinha aparecido na minha premonição. Mas fomos encontrando o equilíbrio e, durante esses anos, no final, o amor sempre venceu. Mas vou deixar o resto dessa história para um texto todinho sobre casamento. Me aguardem.

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