A maternidade nos tempos do iPhone

February 27, 2020

 

        Quando minha mãe foi mãe, ela tinha um telefone fixo que tocava 2 vezes por dia (uma ligação da minha vó, outra da Eletropaulo), uma TV com Globo e SBT que saía do ar na madrugada e tudo que ela tinha pra fazer no dia era ir ao supermercado e servir o jantar para o meu pai. Enquanto eu dormia, minha mãe fazia ponto cruz, testava uma nova receita, folheava uma revista e muito provavelmente cochilava. Ainda bem que muita coisa mudou, mas a demanda que nós mães, temos hoje, é bem diferente. Se antes as mães tinham baby blues, hoje nós temos baby furta cor. Nenê plugado no peito, eu plugada no Whatsapp, tentando salvar o mundo enquanto boto pra arrotar. Sem falar no Instagram. Eu não sabia se postava, curtia, comentava ou trocava a fralda. Tirava mil fotos do fofinho e numa delas deixei cair o iPhone na barriga dele. Morri! Nasce uma mãe, nasce uma culpa. Ligava o Netflix e tinha 16 séries na lista, incluindo aquela ótima sobre maternidade real. Ra-rá. Não ía ao supermercado, mas ficava brigando com o app do Pão de Açúcar que dava pau toda vez que eu escrevia Aptamil. Minha mãe teve filho na casa dos 20. Eu nos 30. Eu estou a mil, mas meu corpo já não é mais o mesmo. Pelo menos para quem já curtiu a vida como eu. Eu amo loucamente meu filho. Com ele rio e choro do fundo da alma. Mas gravidez... já te contei. Sei que tem muita gente que ama. Eu particularmente prefiro que me dêem dez filhos, um cachorro e uma calopsita pra criar, do que uma barriga. Eu suava esperando o elevador, enjoava só de abrir a geladeira, num dia bom comia cream cracker com alcaparra... Depois veio o inchaço, mais calor, xixi na calça(!) e noites mal dormidas me preparando para o que viria depois (a natureza é mesmo sábia).

         Nasceu o bebê. Eu queria um parto lindo, natural e astral, já tinha uma doula, tudo certo. Só que não. Secou o líquido amniótico e tive que fazer uma cesárea que foi uma luta com o Popó que perdi feio. Alguém te avisou que você também sairia de “fralda” do hospital? Aliás, quem não pediu ou chegou a pensar em pedir pra ficar mais um dia no hospital?

         Amamentação, pra mim, não foi um sonho. Veja bem, se fosse duas vezes por dia, seria ótimo, mas 8, 9, 10, de madrugada? Complicado. A gente come carne embalada no plástico, mora em casa empilhada, só pisa na terra quando viaja, aí fica difícil entrar em contato com a natureza nessa hora. Eu amamentei 4 meses. Foi ficando legal. Mas ficar em cativeiro nesse período foi tenso. Não beber e não fumar, pode ser difícil. Não comer chocolate, impossível. Ter que faltar na aula de balé fitness foi chato, mas ir na aula de balé e molhar o colant de leite foi “u” ó! Fazer terapia por skype no bunker, não é a mesma coisa. Manicure em casa, um dia animado. Parquinho: babás, bebês e bactérias. Em casa, ninguém pra conversar já que o bebê não fala, mas pelo menos escuta. E como escuta.

         Me mandaram dormir enquanto o bebê dormia. Como? Bem naquela horinha que eu podia fingir que era gente e que dava até um branco: o que fazer com todo esse tempo livre?! Aí o bebê acordava. Estava assado. Eu tinha certeza que era uma péssima mãe, sensação que sabia que ia ter mais umas mil vezes nos próximos 20 anos. Mas na verdade eu era (sou) uma ótima mãe, porque normalmente ótimas mães, se importam tanto, que se acham péssimas mães. Aí minha mãe chegava. Dava vontade de pedir pra voltar pra barriga dela. Ela virava o bebê de lado, ignorando a Organização Mundial da Saúde, tentava dar suco de laranja lima para o recém nascido (segundo ela é bom pro intestino), pegava o umbigo que tinha acabado de cair e botava na geladeira, jogava talco no bebê, cortava a unha dele, dizia que eu estava indo muito bem e vazava pro Pilates. Ah, as avós nos tempos do iPhone... É sempre difícil atingir o padrão de qualidade Iso 9MÃE. Meu marido saía pra trabalhar – leia-se descansar - e eu desejava um bom dia, ele sorria, eu pensava em como ele era sortudo, sorria de volta e me imaginava jogando um sapatinho de bebê na nuca dele. Os maridos hoje em dia são bem mais participativos do que os da era da TV de tubo. No entanto o mundo insiste em elogiar o homem que troca uma fralda, dá um banho, bota pra dormir. “Ah, como ele ajuda! Ele é uma mãe!”. Como se não fizesse parte da vida dele cuidar do próprio filho e ele tivesse dando uma baita mão para mãe da criança.

         Quando eu não tinha filhos, toda hora me perguntavam quando viria a criança. Depois que tive um filho, começaram a me perguntar quando eu teria o segundo filho. Eu dizia que não queria mais filhos e era bombardeada: “quem tem um, não tem nenhum”. Claro, vem passar um dia aqui em casa para você ver ninguém chorando. Agora minha resposta é: “vou ter o segundo filho na outra encarnação”.

         Durante o dia o bebê chorava, depois de 10 minutos eu chorava, mandava um zap para o pediatra (será que é cólica?), trocava 6 fraldas de cocô, tirava foto da fralda e mandava para o pediatra (essa cor tá normal?), já tinha passado esponja tipo bombril e lanolina no seio que rachava assim mesmo, chorávamos mais um pouco, dormia com o bebê no colo, acordava exausta. Mas quando ele sorria, tudo passava, meu coração derretia e eu sabia que faria de tudo pra fazê-lo sorrir sempre. Então pegava o iPhone, tirava uma foto daquele sorriso e postava no Instagram, só para parecer que eu estava tirando tudo aquilo de letra.

 

 

 

 

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